Uma questão de respeito

Na sala de parto, começou nesta semana uma nova plantonista. Tão novinha que parece uma de nós, doutorandas. Faz menos de ano que ela saiu da residência de Ginecologia e Obstetrícia. Aparenta ter aproximadamente 29 anos.


Logo após a apresentação da nova plantonista pelo nosso preceptor, referi-me a ela como "Sra". Imediatamente, ela corrigiu-me. Disse: "Senhora não!" rsrs... Mas sempre me refiro a ela por esse pronome de tratamento e acho até que ela já se acostumou.

Uma coisa que observo é que alguns internos não acostumam-se a chamar preceptores e professores por Dr. João, por exemplo. Chamam apenas pelo nome. Sempre uso o Dr antes porque considero uma forma de respeito mesmo que o médico seja mais ou menos da mesma faixa etária que a minha. E acreditem: até hoje, nenhum deles pediu pra ser chamado apenas pelo nome. Isso significa que eles também gostam.... É uma questão de RESPEITO!!!

Apenas Números


No rodízio de ginecologia, há um ambulatório de Infertilidade. Impressionante a quantidade de mulheres que sonham em ser mãe. Aliás, me questiono se esse não seria o sonho de todas as mulheres.


Enfim, o fato é que é bem difícil, ou melhor, desafiador fazer um ambulatório de Infertilidade no SUS, no qual os recursos para este fim são limitados, para não dizer inexistentes. O principal exame para avaliar a permeabilidade das trompas é a histerossalpingografia, um exame que não é ofertado na rede pública.

Quando se diz da necessidade deste exame e explica qual a sua finalidade, as pacientes enchem os olhos de esperança e dizem que vão fazê-lo particular, mesmo sacrificando o pouco dinheiro que têm. Mas esta empolgação dura somente o tempo suficiente até elas descobrirem que ele custa APENAS R$ 400,00. A preceptora, reeanima-as com a seguinte orientação: "Saúde é um direito de todos. Vá na secretaria de saúde do municipio com a solicitação deste exame e diga que você tem direito". Assim elas fazem, e surpreendam-se: grande quantidade consegue!!!!! Parabéns pra nossa prefeitura e parabéns pra nossas mulheres, que não desistem diante do primeiro obstáculo!!!

Antes deste rodízio, eu estava no rodízio de saúde comunitária, que como o próprio nome sugere tem uma visão de comunidade, de recursos limitados e de priorização de recursos para os problemas ou afecções mais prevalentes na comunidade. Eu tinha esta percepção em saúde e achava, realmente, que alguns problemas são mais urgentes e mais importantes do que investir o dinheiro público em exames ou em procedimentos,como a inseminação artificial, para 'botar' mais crianças no mundo. Pra quê??? Se a maternidade tá cheia de mães parindo vários deles?

Mas nas minha últimas semanas, eu me deparei com uma situação que me fez refletir sobre meus conceitos. Fui incumbida pela preceptora de anunciar para a paciente que ela, infelizmente, não poderia ter filhos nunca devido a uma malformação uterina, chamada de útero unicorno. Usei de todo o meu português, com palavras suaves, para explicar o que era esse problema que a impedia de ter o filho desejado há 14 anos pelo casal. Eufemismo inútil!!! Ao entender o que de vera acontecia, a paciente não conteve-se e chorou. Senti o quanto era doloroso aceitar que, pra ela, esperança não havia mais, já que a infertilização custaria cerca de R$ 10000,00.

A partir desse dia, entendi, que saúde não é apenas números. Entendo também a importância da epidemiologia no planejamento e gestão de saúde pública. Mas gostaria que todos os gestores do nosso Brasilzão entendessem da necessidade das pessoas que são minoria.

Mas... E se nós pensassemos em números, deveríamos lembrar da enorme quantidade de mães que têm filhos e os abandonam. Não me refiro apenas àquelas mães que deixam suas crianças nas ruas. Refiro-me àquelas mães que deixam a educação e o cuidado de suas crianças à mercê da criminalidade. E que mesmo sabendo que são péssimas mães e que não tem condições psicológicas ou financeiras de terem mais filhos, ainda assim, estão na maternidade anualmente. Eu questiono: diante de um número crescente de crianças abandonadas, e diante de uma mulher que abandona seus filhos e ainda insiste em anualmente ter mais; o governo deveria negar-se prestar assistência ao parto? Parece absurdo, não?! Números não são tudo!!!


Quando o médico é paciente...

- Uma lição de humildade para os médicos –

Luiz Roberto Londres - Médico e Presidente da Clínica São Vicente


Há dias chegou às nossas mãos um artigo inusitado, recém-publicado numa prestigiada
revista médica americana e escrito pelo renomado professor emérito Joseph Perloff da
Universidade da Califórnia (EUA). Ele é mestre de incontáveis médicos em todo o mundo,
pesquisador reconhecido internacionalmente e autor de livros que se tornaram verdadeiras
bíblias para várias gerações de cardiologistas dentro e fora dos EUA. Neste longo artigo,
sem qualquer conteúdo científico convencional, o Dr. Perloff relata de forma pungente a
sua dolorosa via-crúcis como paciente ao ser submetido, subitamente, a uma cirurgia
cardíaca de ponte de safena, destas que são freqüentemente realizadas todos os dias em
várias partes do mundo.

Com a ajuda e testemunho de sua esposa Marjorie, o casal trouxe ao conhecimento de toda
a classe médica uma série interminável de fatos reais e de vivências pessoais, que se
aproximam das torturas infligidas aos homens e mulheres na Idade Média. O que o levou a
questionar – em determinado momento de seu intenso sofrimento pós-operatório – se
estava valendo a pena passar por tudo aquilo com o objetivo de resolver o problema médico
que o afligiu e o levou à mesa de cirurgia para corrigir uma doença séria. Ou se não teria
sido melhor optar por uma outra forma de tratamento, mesmo que esta não fosse a melhor
ou a ideal para o seu caso.

Como professor de medicina há 50 anos, Joe Perloff faz parte de uma geração de médicos
que vivenciou várias etapas do conhecimento científico e do enorme aprimoramento da
medicina diagnóstica e terapêutica, ao longo de várias décadas. Mas, antes de tudo, Joe
Perfloff foi e continua sendo um médico “da velha guarda”, um médico que continua a
praticar uma medicina humanista, na qual o que se valoriza é o paciente e não a doença.

O fato de ter sido internado no mesmo hospital, onde por muitos anos foi e continua sendo
médico e professor, por ele ter sido tratado por uma excelente cardiologista que foi sua
aluna e residente e por ter sido operado por um proeminente cirurgião cardíaco com quem
trabalhou ao longo dos anos e que era seu amigo, não tornaram as coisas mais fáceis. Pelo
contrário, levaram a situações de constrangimento de ambas as partes. Desde ações de
descuido e até mesmo de negligência médica – que precipitaram conseqüências que seriam
evitáveis – mas que o levaram a grandes sofrimentos e ao prolongamento de sua doença.
Ações que só não tiveram piores conseqüências porque sua cuidadosa esposa tomou para si
várias atitudes que, na verdade, eram da responsabilidade de toda a equipe assistencial.
É claro que a dolorosa e desagradável experiência vivida pelo Dr. Perloff, ao ser travestido
de paciente, não é aquela que nós médicos vemos na grande maioria daqueles que são
submetidos às modernas práticas médicas. A experiência do nosso querido professor teria
sido mais um caso de “esmeraldite” (complicações que só acontecem com os pacientesmédicos).
Mas será mesmo? Ou será que o paciente não médico também não vivencia um
percurso doloroso parecido com o do Dr. Perloff, mas sublima ou releva o sofrimento por
se sentir agradecido ao seu médico por estar vivo, após tão séria doença e tão melindrosa
operação cardíaca? Ou porque o médico – considerado como o seu salvador – merece ser
enaltecido e engrandecido pelo paciente e não se ver transformado num poço de queixas e
lamentos pelo sofrimento que lhe destinou?

A nós médicos cabe uma profunda reflexão sobre o testemunho do colega e mestre, que nos
ensinou a ser melhores profissionais. Mas, que agora, nos dá uma magistral aula de como
não nos portar com nossos pacientes, sejam eles médicos ou não. A medicina
contemporânea se tornou tecnicista como uma exigência da própria sociedade, que é levada
a crer que o melhor cenário diagnóstico e terapêutico é aquele que se fundamenta
principalmente na tecnologia e não na capacidade de raciocínio do médico. E, não há como
negar que o médico de hoje é incomparavelmente melhor tecnicamente que o de ontem ou
o de há dez anos.

Porém, o que também vemos – principalmente naqueles com mais de 30 anos de graduados
– é uma progressiva e desafortunada perda da capacidade de perceber o paciente como um
ser doente do corpo e da alma. Sim, de ambos, pois um não se dissocia do outro.


O simples ato de o paciente dar ao médico o poder de decidir o que fazer com o seu corpo significa uma abdicação da sua própria autonomia, um reconhecimento da sua fraqueza e impotência como indivíduo. Enquanto algumas pessoas lidam com esta situação de forma mais complacente, outras sofrem intensamente no seu psiquismo com a perda da sua suposta invencibilidade.


Alguns médicos do século XXI precisam descer do pedestal imaginário de senhores de um
conhecimento que, com enorme freqüência, está restrito ao das ciências biológicas e,
geralmente, é focado nas ciências químicas e físicas. Eles precisam ouvir atentamente a
história de cada um dos seus pacientes para aprender com cada um deles um pouco mais da
arte da prática médica. Ouvir, ouvir, ouvir; pensar, pensar, pensar e refletir, refletir, refletir,
entendendo que o ouvir não se basta se não houver a interpretação do que se ouve,
incluindo as mensagens não verbalizadas – simbolismos presentes no discurso do paciente
– até mesmo daquilo que ele esconde ou simplesmente não percebe. Para que ele entenda
não só a doença do corpo, mas também a doença da alma, ou seja, a pessoa doente e não,
simplesmente, a doença na pessoa. Sem reduzir a dimensão humana a seus aspectos
biológico, químico ou físico. Isso, não há dúvida, que aparelho algum é capaz de realizar.
Como diz o Dr. Perloff, é difícil resistir aos apelos tecnológicos. Afinal, a tecnologia ajuda
muito o médico. Mas também, o médico não pode se permitir perder a humanidade. E
deve se lembrar que, quando Asclépio – o Deus da Medicina – quis testar o seu poder além
da conta, Zeus o destruiu com um raio para não permitir que as regras da morte fossem
quebradas.

O médico deve continuar lutando contra a morte. Mas, o que o paciente deseja é muito
mais do que a vida. É saber qual e como será o caminho para ele chegar lá. É aí onde o
médico de hoje deve ser melhor, muito melhor do que o de ontem.



Asclépio , na mitologia Grega ou Esculápio, na Romana; é o principal deus da Medicina.

A história diz que a bela Coronis, uma mortal, entregou-se ao deus-sol Apolo, tendo engravidado. Mas casou-se com Ischis, a quem havia sido prometida. Apolo matou Ischis, e sua irmã, Artemisa, matou Coronis. Antes que o corpo de Coronis fosse incinerado, Apolo roubou Asclépio e entregou-o aos cuidados de Quíron. Este foi o responsável pela educação e criação do menino, que aprendeu todos os segredos da arte curativa com plantas medicinais. Quando cresceu, Asclépio tornou-se tão habilidoso, que era capaz de ressucitar os mortos. Preocupado com a despovoação do “além” e a ordem natural das coisas, Zeus, o principal deus do Olimpo, matou Asclépio com um raio, mas em seu reconhecimento, levou-o aos céus e transformou-o em divindade. Sua mulher, Epione, acalmava a dor; suafilha Higéia, simbolizava a prevenção das doenças; outra filha, Panacéia, simbolizava o tratamento das doenças; seu único filho, Telésforo simbolizava a convalescença. Sempre que uma peste ou epidemia assolava uma região, os médicos saiam para matar as cobras, pois acreditavam que estes seres demoníacos eram os causadores das doenças. Estando com a cobra enrolada em seu bastão, Asclépio tem o domínio das doenças, curando seus pacientes. Com o tempo, a serpente no bastão de Asclépio tornou-se o símbolo da Medicina, enquanto que a taça e a serpente de Higéia, passaram a simbolizar a Farmácia.Segundo alguns autores, o grande Hipócrates é o décimo-nono descendente de Asclépio eo vigésimo a partir de Zeus. O avô de Hipócrates, também médico, chamava-se Hipócrates, mas nunca alcançou a fama daquele que tornou-seconhecido como o “pai da medicina”.



Fonte http://www.asclepios.com.br/medico/node/2

Descarga Papilar

Quando eu ainda estava no rodízio de Saúde da família, atendi uma mulher de 35 anos com descarga papilar não espontânea de coloração esverdeada. A paciente apresentava-se com semblante de pavor e de preocupação com o achado feito pela paciente quando fazia o auto-exame das mamas.
O sinal foi observado por mim durante o exame físico e realmente é algo que "assusta" a pessoa com inexperiencia em relação às patologias mamárias porque a descarga tinha volume considerável e a coloração era verde-lodo.
A nossa preceptora logo acalmou a paciente e encaminhou-a para o ambulatório de especialidades de mastologia, cujo os atendimentos são feitos pelos acadêmicos da minha faculdade e cujo estou tendo o privilégio de estar nele neste momento.
Não tive a oportunidade de acompanhar o desenrrolar do caso da minha paciente do PSF, mas acredito que tenha feito a conduta correta.
Quanto a conduta, eu esquematizei baseado na referência bibliográfica abaixo alguns pontos quando um paciente surge com esta sintomatologia:

1-É espontâneo ou provocado?
2-Qual a coloração?
3-Há nódulos palpáveis?







Estou agora no ambulatório de subespecialidades da Gineco-obstetrícia. Eles incluem ambulatório de Pré-natal normal, pré-natal de alto risco, Ginecologia geral, Patologias Cervicais, Infertilidade, Planejamento Familiar, Mastologia, DST e Urologia. Ficarei por aqui durante 7 semanas.

Enfermaria Clínica da GO

Esta semana estarei acompanhando os pacientes da enfermaria de clínica da GO, onde são acompanhadas paciente grávidas com qualquer patologia que mereça internação, a mais comum é DHEG ou pré e pós-operatório de cirurgias ginecológicas.

Hoje foi meu primeiro dia e acompanhei uma paciente, cujo atendimento já havia sido feito por mim no rodízio de saúde comunitária. Eu fico feliz quando encontro uma paciente antiga e sinto que elas também ficam mais confiantes e relaxadas por ter um rosto conhecido em meio a tantos médicos novos.

Durante esses dias, fui escalada para o plantão noturno duas vezes. Meu namorado me acompanha durante os plantões para me ajudar na triagem de pacientes. O primeiro foi "tranquilo" e foi um dia histórico na maternidade por não ter surgido nenhum atendimento durante a madrugada. O segundo foi um pouco mais cheio com casos corriqueiros, como falso trabalho de parto, e casos um pouco mais dramáticos, como DHEG ( Doença Hipertensiva exclusiva da Gestação), aborto e um natimorto.

Todos eles me trouxeram um aprendizado, seja ele sobre a Medicina ou sobre o que há além da medicina e que não está escrito nos livros de condutas médicas.
O que mais me marcou foi o natimorto.... A mãe em estado de choque, como se não cresse no que havia acontecido ou como se ainda não tivesse consciencia da real situação; lamentava pelo ocorrido, com algumas lágrimas rolando na face. E também se culpava: Isso foi um castigo por aquilo que eu fiz!
Considerei o corpo médico, obstetra, pediatra e internos(leia-se eu), muito frios e alheios à situação da mãe, que acabara de perder um filho. Tenho uma sensação de que eu poderia ter feito mais por ela....

Ginecologia & Obstetrícia

Estou agora num outro serviço.... A ginecologia e obstetrícia:GO. O primeiro dia: tudo novo, serviço novo, função que nunca havíamos feito antes. Ficamos, eu e meus amigos, na enfermaria da obstetrícia, conhecida como alojamento conjunto. O serviço ficou bastante trabalhoso para cada um de nós porque nesta época do ano, forma-se uma turma, então torna-se menos colegas para "tocar o serviço". Além da enfermaria, temos ambulatório de ginecologia no turno da tarde e damos um plantão noturno semanal na sala de parto.

Estive por várias noites acordada estudando para uma prova de final de rodízio. Foram mais de 60 assuntos a serem avaliados em apenas 40 questões tradicionalmente de nível elevadíssimo. Foram momentos de tensão pré-prova intensos até às 19h do dia 3/12/09. O resultado até agora não saiu!!! E agora estou numa tensão pós-prova!!!

Credibilidade de informações

Atendi, há um tempo atrás, uma senhora que além de obesidade tipo I, apresentava DM e HAS. Era uma paciente resistente às nossas orientações quanto a importância de controlar a alimentação e a influência que o estilo de vida sedentário tem em piorar o prognóstico da sua doença. Ela reclamava de tudo!

Hoje, uma amiga de internato atendeu-a para uma consulta de retorno porque eu ja estava atendendo outra pessoa. Durante o atendimento ela disse pra minha amiga: A outra dra disse que eu não ia emagrecer nunca!
Quem me conhece sabe que eu nuca diria uma frase como essa pra alguém, muito menos para uma paciente! Não lembro ao certo as palavras que usei pra explicar que ela devia perder peso, mas tenho certeza de que essas narradas por ela não foram ditas por mim!
Mas fiquei feliz porque de uma forma ou de outra eu consegui estimulá-la a emagrecer desafiando-a (na interpretação dela) e ela conseguiu perder 4kg em dois meses.... Encontrei com ela nos corredores e ela me contou o feito com orgulho!
MORAL: Cuidado com as informações que os pctes chegam contando de outros médicos pra vc: nem tudo pode ser verdade!!!

Susto 2

Os atendimentos já haviam acabado quando chegou uma pcte de 22 anos para ser atendida por apresentar uma crise asmática. No meio do atendimento, a pcte desmaiou... Perdeu a consciência e começou a apresentar uma crise convulsiva na nossa frente... No posto não havia nenhuma medicação que pudesse ser administrada. A preceptora rapidamente fez o que era possivel e solicitou uma ambulância para levá-la para emergência da cidade. Enquanto aguardávamos a ambulância, ela recobrou a cosnciencia e disse que tomava diazepam e carbamazepina todos os dias. Relatou também que não tinha ainda (às 17h) ingerido nenhum alimento porque não tinha nada pra comer em casa. O marido era alcoolista e gastava tudo o que tinha com bebidas e a batia todos os dias. Eles tem uma filha de 2 anos e, segundo a acompanhante, uma vizinha de 14 a, a mãe já havia tentado matar a filha e às vezes quebrava todos os objetos da casa.

Fui rapidamente providenciar algo para alimentá-la. Ela ja estava quase recuperada quando a ambulancia chegou. Ainda assim, encaminhamos para a urgência para ser feito aerossol, ja que nosso posto está sem inalador. Mas antes administramos salbutamol para reverter o quadro de dispnéia. Um achado do exame físico chamou a atenção: ela não apresentava sibilos na ausculta pulmonar!!!

Tendo isso, levantamos várias hipóteses que podem estar associadas:
  1. Hipoglicemia
  2. Convulsão
  3. Estresse social
  4. Histeria
  5. Psicose
Ah! Ela disse que chamou uma emissora de TV da região para pedir ajuda aos telespectadores para uma criança e uma mulher que passam fome na cidade... Ipobe com a miséria alheia!!!

Outra coisa, chamou-me atenção: a moça que a acompanhava, não se mostrou espantada qud a pcte apresentou a crise convulsiva e mostrou-se muito disposta à ajudá-la inclusive acompanhando-a à emergência. Menina de bondade, caridosa e corajosa que merece seu reconhecimento e a gratidão de uma mulher que n tinha quem olhasse por ela aqui na Terra!

Devemos sempre lembrar de agradecer a Deus por nos ter dado a nossa família, que está sempre conosco para nos apoiar e agradecer por nunca ter passado fome e rezar cada dia para que ninguém no mundo passe por isso!!!

Estou cansada!!! Vou dormir...




Hj ao chegar ao posto, logo depois de estacionar o carro, desviei por um instante minha atenção para desligar o som, quando ouvi alguém bater levemente na janela do carro. Quando olhei novamente para a janela, vi um homem de mais ou menos 30 anos que ameaçou esmurrar a janela do carro num gesto de muita brutalidade. Ao ver a minha atitude de susto, e acreditem foi muito grande o susto, ele desfez a fácies de ira e num segundo tranformou-a numa facies de deboche com um sorriso no rosto e saiu dalí como se tivesse visto a coisa mais engraçada da vida... Fiquei por alguns segundos em estado catatônico!!! Meus companheiros de internato ainda tentaram identificar a pessoa, mas achei melhor não nos envolvermos com gente assim, afinal estaremos naquela área durante muito tempo ainda... Os 30 min seguintes foram de tremores nas mãos e muita agitação!
Pensei: Deve ser psicopata e eu deveria oferecer ajuda!
No fim de tudo, agradeço por ter sido uma brincadeira e por estar a janela fechada naquele momento!!! Acho até uma certa graça agora que tudo está bem!!!


"Não fosse trágico, seria cômico"

Leite Derramado


Acabei de ler "Leite derramado" de Chico Buarque... Recomendo àqueles que admiram e tentam, na medida do possível, humanizar a medicina. Trata-se de um senhor que, antes rico e com privilégios, encontra-se pobre e acamado num leito hospitalar. É um monólogo no qual o personagem principal conta várias histórias de uma longa e interessante vida, mas que não compartilha de ouvidos atentos à elas... É uma oportunidade de nós, profissionais da saúde, por-nos-mo no lugar de quem padece e, de lembrar que todas as pessoas têm histórias e que um pouco de atenção a elas não nos custará nada....

Visita Domiciliar

Hoje é o dia das visitas... Fiz duas visitas hj. Uma foi um retorno à uma paciente idosa de 85 anos. Eu ja tinha ido antes na casa dela e todas com a mesma suspeita: ESCABIOSE! Na visita anterior tratamos com Permetrina 5% loção para ser usado por 3 dias e depois repetir a dose após uma semana e orientei pra lavagem e troca de toda a roupa de dormir (fômites). Bom, mas a queixa de prurido ainda hj permanecia, tanto que agora atingiu o olho, deixando-o bastante edemaciado. Lembrei que em casos de escabiose, os contactantes mesmo assintomáticos devem ser tratados, porém a preceptora achou desnecessário essa conduta. Me orientou a prescrever Ivermectina e loratadina para diminuir o prurido.

A outra visita, era também uma senhora de 94 anos com um déficit auditivo bastante acentuado, o que dificultou muito a anamnese. A cuidadora me alertou para o problema, mas a paciente sempre que eu, gesticulando, perguntava sobre a audição, respondia com a seguinte frase: "Eu estou ouvindo bem! Minhas oiças tão boa todo!" Achei engraçado como ela negava uma doença que incomoda tanto quanto a perda progressiva da audição...


Melhor do dia: Voltamos a ter autorização para prescrição!!!!

Desestimulada....

Parei de postar por um tempo por dois motivos. O primeiro e mais importante deles é a repetição frequente dos casos e dos pacientes, já que agora estou na fase de acompanhamento de dçs crônicas. E o segundo motivo foi o comentário anônimo no meu último post; trata-se de uma crítica que seria bem-vinda se fosse argumentada. Como não foi argumentada, resolvi ignorá-la, mas n apagá-la pelo livre direito de expressão de todos...
Reafirmo que meu objetivo é registrar minhas percepçoes e vivências da vida acadêmica e dividí-los com quem tem interesse... Fico feliz em compartilhar!!!

Assassinato

Hj atendi uma senhora de quarenta e poucos anos para receber receita especial de anticonvulsivante. Ela faz uso de tres anticonvulsivantes e ainda assim apresenta crises. Perguntei pq ela começou a usar essas medicações. Ela respondeu que o marido dela a empurrou da moto qud estavam em movimento. Ela disse que acordou em Fortaleza rodeada de médicos e com a cabeça td raspada pq ela tinha feito uma neurocirurgia. Afirmou que n lembrava do que tinha acontecido, mas seu filho de 5 anos na época explicou o que o pai tinha feito. Ela ficou desde então apresentando crises convulsivas. Relata que foram inúmeras as vezes nas quais perdia a consciencia devido as crises e qud recobrava a consciencia, via seus filhos ao seu redor chorando... E que ia para o trabalho e acordava no hospital. Foi internada várias vezes na UTI. RElatou que passou mt fome com os filhos pq ela estava impossibilitada de trabalhar no pos-operatorio recente (uns 5 meses sem andar) e tinha tres filhos pequenos pra alimentar...
Fiquei mt comovida com a história... Perguntei: E como ele era antes de casar? Ela: Era tão bom que fazia raiva!!! Pensei: Como se há de conhecer alguem que vc está disposto a dividir a sua vida (tristezas e alegrias, vitórias e derrotas)??????

Aquele paciente que é pai de Sandy e Júnior, voltou hj para consulta. Contou a msm história de novo, mas desta vez tinha uma novidade. "Minha nega, eu lembrei de vc. Vc morreu pra ser minha mãe em outra encarnação!" Rsrsrssr!!! achei o máximo isso!!! Depois ele disse q deu toda a inteligencia do mundo pros japoneses depois q os EUA destruiu o Japao na guerra... Adoro atender esse pct!! Ele disse hj que era mt feliz msm tendo essas 'revelações'... Ele é bem animado!!! Ahhh... Perguntei se ele n gostava do CAPS. Ele respondeu q n pq as atividadezinha do caps era mt chatao e deixava ele prequiçoso....

Instinto Materno

Fui então atender a outra pcte... Era uma senhora de 60 e poucos anos, n lembro ao certo, que apresentava RGE de forte intensidade há tres anos... Compareceu ao posto para mostrar EDA, que, contrariando o esperado, apresentou-se sem lesão da mucosa... Bom pra minha querida pcte!!! Disse pra ela que meu pai tbm apresenta RGE e expliquei pra ela as condutas n-farmacológicas que ele faz pra controlar a dça, tanto que liguei pra ele no meio da consulta, a pedido dela, pra saber onde ele tinha comprado um "pseudocolchão" que é mais elevado na cabeceira.
Enquanto eu aguardava a preceptora retornar, ela disse que teve uma tristeza mt grande esses dias, pois descobriu que seu ex-marido estava morto e havia sido enterrado como indigente... Logo em seguida disse que apesar de td o q ele tinha feito com ela, ele n merecia morrer assim. "Ele me trancava no quarto e me batia. Batia nos meus filhos tbm! Ele so me batia qud bebia, mas bebia td dia! Se tirasse a bebida dele, ele teria sido um bom marido! A gente se separou n foi por causa q ele me batia, pq isso aí n tinha qud ele n bebia... O problema foi que ele fez uma coisa com minha filha mais velha!!! E isso n tem perdão!!!"
Achei inconveniente perguntar o q tinha acontecido, mas confesso que penso num ato condenável e realmente imperdoável!!!
Conclusão: ela aguentaria calada tds as agressoes q ele fizesse contra ela, mas n aguentou uma agressao contra a filha... INSTINTO PROTETOR MATERNO!!!!!

Hj fiz um atendimento a um pcte de 74 anos, mas que aparentava ter no máximo 50. Antes de perguntamos a idade dele, eu perguntai se o homem que estava lá fora era pai dele... Ele achou engraçado e disse que um homem na idade dele n tinha mais pai... É Verdade!!! Foi falha minha, mas serviu pra descontrair o ambiente, afinal quem n gosta de ser elogiado com uma aparência de jovem???
Bom a queixa dele na verdade era nenhuma, a consulta era para acompanhamento de depressão.... Mas, ele queria msm era desabafar e realmente o fez: "Vou dizer logo a vcs, pq vcs são doutores e eu tenho obrigação de n esconder nada!". E começou a falar da vida pessoal dele. Disse que era viúvo há um ano, tinha 11 filhos e há dois meses casou-se com uma jovem de 44 anos, que estava solteira até então. REclamou que a atual esposa era mt bruta, que n tava querendo fazer as obrigações de casados!!! rsrsrs... lá pro meio da anamnese, ele disse: Eu fiz operação da próstata e minha potencia caiu, tem algum remedinho pra isso??? Meu companheiro logo tomou a voz e disse que logo mais falaria mais sobre esse assunto...
O pior de td é que logo depois disso, a preceptora me designoou a um outro atendimento e n vi o desenrolar dessa historia, mas meu amigo, me garantiu que foi mt divertita!!! rsrsrs...